Tragédias vistas da janela

Entrei na internet hoje e vi sobre o terremoto na China, centenas de mortos. Depois vejo a respeito de um forte tempestade na Índia, com muitos mortos e desabrigados. E por último, sobre um vulcão na Islândia. Depois de todas essas catástrofes num só dia, foi impossível não recordar o histórico do nosso ano: desmoronamento em Angra, terremoto no Haiti, chuvas em São Paulo, terremoto no Chile, chuvas absurdas no Rio e outras que devo estar esquecendo. Isso porque estamos falando de notícias abrangentes, nem incluímos aqui aquelas notícias locais que passam nesses jornais sensacionalistas: estupro, assassinatos, abusos sexuais, etc, coisas que sempre vejo quando visito meu avô, ele assiste a todos esses jornais.
Meu Deus! Vou assistir ao filme de 2012 me sentindo diante de uma obra profética assinada secretamente por Nostradamus. Celebridades, façam mais eventos beneficentes!!!
Brincadeiras a parte (Por favor, ninguém assista 2012 com seriedade, o filme é bem meia-boca, em minha opinião).
Não podemos assistir tudo isso da janela de nossas casas, simplesmente como aquelas vizinhas fofoqueiras que observam todo o movimento da rua para poder alimentar o repertório de fofocas. Por que, no fundo, é isso acontece. Assistimos as notícias, temos uma certa sensibilidade, mais intensa para uns, menos para outros, mas então a vida segue sem grandes mudanças.
Não tem como prantearmos os mortos do Haiti hoje, dia 14 de abril, vendo os mortos da China. Não há coração que agüente, não há mente que se preserve saudável acumulando tanta dor. Esquecer é uma forma de sabedoria do cérebro para se preservar. O importante é termos o discernimento entre o comprometimento necessário e o esquecimento saudável. Para variar, todo equilíbrio é difícil de se encontrar.
Para incluirmos na nossa trágica contabilidade não podemos esquecer dos nossos próprios sofrimentos. Por isso, nós corrermos o risco de, em meio a freqüência de tragédias que nos chegam ao conhecimento, nos tornarmos pessoas insensíveis ao sofrimento humano, nos atendo somente as nossas dores. Não podemos nos acostumar e apenas seguir em frente, esperando o noticiário do próximo dia para contar as novas desgraças. Não podemos simplesmente viver na segurança do nosso mundo pseudo-perfeito, como se não fizéssemos parte de uma mesma família.
Também não podemos aliviar nossa consciência com debates sobre o apocalipse, parusia e essas coisas todas, porque corremos mais uma vez o risco de nos isentarmos de responsabilidade alegando o caráter profético desses acontecimentos.
Não concordo e nem discordo que estamos vivendo o apocalipse. Mas o caminho não é saber em que tempo bíblico nós estamos. Tanto faz!!! Nossa conduta e postura cristã devem ser a mesma, estando nós na iminência da volta de Jesus, ou a séculos de distância dela.
Nosso chamado não é olharmos da janela. É irmos ao encontro. De quem? De quem podemos alcançar. Nossos vizinhos, as pessoas ao nosso lado na fila do banco, as que nos cruzam na calçada, familiares, amigos, todos.
A dor da humanidade não nos dá poder para fazermos obras miraculosas na China, mas podemos estender a mão no nosso bairro. Todo esse acontecimento deve nos sensibilizar e nos colocar em movimento constante de sairmos de nós mesmos e irmos ao encontro de quem está ao nosso lado.
Eu preciso aprender a tirar o foco dos meus problemas, e, por vezes, até ignorá-los por um certo tempo, para vivenciar, em companhia, o problema do outro. É muito útil por a mão no bolso e doar para obras de reconstrução do Haiti, mas somente isso não indica mudança de vida.
Usando os exemplos de hoje, somos tentados a viver na “Big Apple”, ou seja, na tentação do conforto de Nova York, mas Deus nos chama para a China. Deus nos chama a ajoelharmos por quem nada podemos fazer, mas somos chamados a fazermos por quem podemos. Temos que ser dóceis ao Espírito Santo para identificarmos os destroços que se entulham diante dos nossos olhos. Temos que tirar as pessoas dos escombros, estender a mão, olhar nos olhos e sermos a presença de Deus. Quem fica o tempo inteiro vendo ao longe, esquece-se de olhar para o lado.
Por Felipe Savietto















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