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Terceirização de Responsabilidade

Escrito por Juliano Pozati 14 setembro 2009 4 pessoas comentaram

Quem circula pelas áreas gerenciais das empresas ou é habituado a ler revistas de negócios, já se familiarizou com o termo “terceirização”. Conceito importado, como sempre, dos States, “Terceirização” (no inglês outsourcing) nada mais é do que transferir à terceiros todas as tarefas ou operações que não fazem parte do negócio principal da empresa.

Por exemplo, você tem uma empresa que fabrica cuecas. Seu negócio é comprar tecidos, elástico e linha; contratar costureiras, e transformar aquilo tudo em cuecas. E depois, vender as cuecas. Treinar um porteiro, por exemplo, não tem nada a ver com o negócio principal, que é fazer cuecas. Então você terceiriza a portaria. Ou seja, contrata uma empresa especializada em porteiros. Você paga a empresa que paga o porteiro. E não só paga. Ela veste o porteiro como você pedir, treina, dá os vales da vida. Enfim, faz tudo o que você não quer fazer. Ela assume a bronca total. Se o porteiro é demitido, quem paga a rescisão é a terceirizada, e não a sua fábrica de cuecas.

Terceirização é como dizer: este problema não é meu.

Bom, semana passada, durante a Expo Cristã, estava o Juliano em seu lugar, jantando um delicioso Frango à Passarinho, quando no mesmo pavilhão, há poucos metros da minha mesa, começou um culto “super jóia” com a bispa Sônia e seu respectivo apóstolo. Tirando o volume, que fazia meu frango trepidar até quase sair do prato (mortos andam), fiquei surpreso com a mensagem dos Hernandes.

Primeiro porque esperava um pouco mais de persuasão e eloqüência no discurso. Não tinha começo, nem meio, nem fim. Segundo porque, para variar, o discurso inflamado sinalizava uma disputa maniqueísta, do “time de Deus” versus “time do Diabo”. Se você tem problema, é porque o Diabo está aprontando. Se estiver tudo certo, é porque você está sendo bonzinho e Deus está te recompensando. A parte venenosa deste discurso é que nunca a culpa é do sujeito. Ou é “benção” ou é o diabo.

Se o sujeito fez merda, é porque o diabo o fez fazer. Lembra do Genesis né?

– Adão você comeu o fruto?

– Ah! Foi a mulher que o Senhor me deu que trouxe o fruto aqui!

– Eva, você pegou o fruto?

– Ah! Foi à serpente quem falou!

E com essa história o ser humano sempre terceiriza a responsabilidade. O pecado não é dele. É da serpente. Aí ele se engana, nunca assume a culpa, muito menos as conseqüências dos seus atos. Nunca reconhece a multidão das próprias misérias. O sujeito se coloca sempre como vítima e não como culpado.

Nunca fez curso de inglês, largou a escola no colégio, tem uma preguiça danada de ler e acha que o presidente da República ainda é o Fernando Henrique. Mas é o diabo quem o impede de conseguir um emprego.

Não conversa com a esposa, não pede opinião, não dá atenção aos filhos, torra a grana com cachaça e besteiras. Mas é o diabo quem está destruindo sua família.

Só fofoca, reclama da vida, fala mal dos outros e vive sozinha. Mas é o diabo quem tem jogado solidão na vida dela.

culpaA geração de pseudo-cristãos idealizada pelos Hernandes, Macedos e Cia Ltda. é uma geração que terceiriza responsabilidades, e não enfrenta suas limitações interiores. Se a culpa é sempre da serpente e o sujeito nunca é culpado, então ele não precisa de perdão, muito menos de Salvador. Afinal, a culpa é da serpente. Ele parece até estar sendo injustiçado! Oh coitado! Coisa de criança, diga-se de passagem – Foi ele!!! Não fui eu! – as responsabilidades ficam por conta do diabo.

O grande pulo do gato é que, para sair da lama, é preciso primeiro reconhecer que está na lama. Não sai da lama quem não reconhece que está nela. É a partir da nossa autoconsciência de pecadores, que experimentamos interiormente a Graça de Deus. E onde abunda o pecado e a consciência de si mesmo como pecador, irá superabundar a Graça da Redenção. Assumindo que sou EU o pecador, não tentando empurrar a culpa para outro, mesmo que o outro seja o diabo. Quanto mais pecador eu me entender, mais do amor de Deus irei experimentar.

E é aí que está a GRAÇA! E o melhor, é de graça! É como se pudéssemos ir à delegacia de Deus, confessar todos os nossos crimes, mesmo os mais graves, ser ter medo da pena, pois nesta delegacia foi deixado um cheque em branco, assinado com o Sangue do Sacrifício de Jesus. Não tem valor. Está assinado em branco. Por maiores que sejam os meus e os seus crimes, Jesus deixou a fiança paga. Então meu caro, minha cara, você não precisa ficar terceirizando responsabilidades. Não precisa fugir da culpa, ou tentar empurrá-la. Porque não há culpa que não seja coberta pela Graça. “Ó feliz culpa que mereceu tão grande Redentor, ó feliz culpa!” (Hino de proclamação da Páscoa)

Meu amigo Décio Figueiredo sempre cita um de seus autores prediletos para definir a Graça de Deus: “Não há absolutamente nada que você possa fazer, que faça com que Deus ame menos você. E também não há absolutamente nada que você possa fazer, que faça com que Deus ame mais você. Porque Deus já te ama infinita, absoluta, e plenamente”.

Como remédio está para o doente, a Graça está para os pecadores. Definitivamente, sou um deles. E você?

Juliano Pozati

Por Juliano Pozati

4 pessoas comentaram »

  • Felipe disse:

    Excelentes comentários. Só discordo de uma coisa. Todo mundo sabe que o presidente não é o Fernando Henrique e sim o Lula. Afinal, quem não tem emprego tem bolsa-familia hehehe. É a terceirização do salário. Não para o governo, mas para quem trabalha e paga impostos.
    Essa questão de terceirização é muito sério, arrisco a dizer que, se não todos, a maioria terceiriza alguma coisa. Com freqüência nos pegamos tentando encontrar justificativas para nossos fracassos, quando na verdade a responsabilidade é nossa por eles. Obviamente, existem fatores externos. Não devemos ignora-los, mas algo de nossa competência precisa ser questionado. E é essa mudança diária que a vida e o evangelho nos propõe.

  • Juliano Pozati (author) disse:

    Puts.. sem palavras! para o seu comentário Fe!

  • Decio disse:

    Querido Juliano fico muito honrado por ter sido citado em mais um de seus tão lucidos artigos deste site cristalino, e quero registrar que o texto esta incrivel, assim como o argumento, isso significa que precisamos almoçar e jantar mais vezes,
    Grande abraço cristão
    Decio

  • Juliano Pozati (author) disse:

    Você me leva a bancarrota!!!
    … quando e onde? rsrs

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