Às voltas com a fé e a razão
Fé e razão… assunto antigo e sempre atual. TÃtulo e tema deste portal.
Freqüentemente nos vemos à s voltas com este tema, e faço questão de acentuar com “crase”, justamente para manter o estilo antigo de escrita. Nada contra a nova ortografia, mas o assunto em si não necessita de nova roupa, apenas da mesma atenção de sempre. Então o acordo ortográfico que me perdoe, mas vai ficar “craseado” mesmo.

Semana passada fui surpreendido por dois colegas de trabalho que próximos ao fim do expediente argumentavam sobre alguma coisa. Fui convidado a participar da conversa e notei que discutiam sobre fé e razão, diante da questão “a existência de uma exige necessariamente a existência da outra?”
Creio que este seja o ponto que me chamou a atenção. Talvez porque não seja possÃvel responder prontamente a esta questão. Não sem um estudo profundo. Não sem uma base teológica efetiva. Não faltando 15 minutos para o final do expediente.
Deste modo, preferi mudar o ponto de vista da pergunta. Como não tinha em mãos o Fidelis et Ratio (documento da Igreja Católica, de autoria do Papa João Paulo II, que tange esta questão com excelência) a saÃda era questionar se os pontos são efetivamente auto-excludentes, ou seja, se a existência de um implica necessariamente na inexistência do outro, ou não.
É comum pensar no maniqueÃsmo, a luta entre o bem e o mal, descrita em diversas culturas como o ponto de ruptura entre o humano e o divino. Eleva-se o humano ao status de bem e o divino ao status de mal, quando se pensa “à luz da ciência”, contra a igreja repressora desmascarada no iluminismo. Ou o contrário, quando consideramos o divino como sendo o bem e qualquer negativa dEle como sendo o mal encarnado em atos ou omissões.
De acordo com esta linha de pensamento, me vêm à mente a frase “Timeo hominem unius libri“,  (Temo o homem que só conhece um livro), de São Tomás de Aquino.Â
A fé sem razão nada mais é do que ignorância.
Me perdoem os fundamentalistas, mas uma fé cega gera literalmente um comportamento de rebanho, sujeito aos desvairios de maus pastores com dinheiro na cueca.Â
Escutar uma pregação e não processar o que foi dito, consiste em ignorar a profundidade real das palavras. Basta lembrar do artigo Escutatória, publicado aqui mesmo.
Em tempos de igrejas brigando com redes de televisão, de polÃticos e jogadores de futebol sendo associados a conglomerados supostamente religiosos com fins lucrativos, de uma internet onde qualquer um pode ser autor de conteúdo – o que torna questionável a confiabilidade do que lemos - beira o suicÃdio espiritual aceitar a fé sem uma pitada de razão.
Seria então a razão a chave para o sucesso? Mais uma vez, voltemos a Tomás de Aquino. Uma andorinha só não faz verão.
A razão sem fé é egoÃsta.
Sozinha, a razão descarta a necessidade qualquer ato que não tenha impacto imediato em sua vida. Descarta a necessidade de se preocupar com o próximo, quando as autoridades e programas sociais devem se encarregar disso. Descarta a necessidade de se voltar a um criador, uma vez que nós mesmos somos criadores de matéria, ainda que artificial.
Porém, nestes tempos de bens de consumo, do descaso com a vida alheia, de busca incessante por colocação em uma sociedade que estremece diante de uma crise financeira, a busca por uma existência sem motivação maior ou mesmo sem co-relação com pessoas que não estejam em sua vida social se torna vazia.
E aqui está o ponto ao qual procurei de chegar: Uma fé sem razão nos torna acéfalos, enquanto a razão sem fé impossibilita a realização de qualquer ato de caridade efetiva sem interesse futuro ou possibildiade de lucro (pessoal ou não).
Uma vez que qualquer destas duas posturas é nociva ao ser humano, deixemos aos teólogos e filósofos a discussão sobre o modo como estes pontos se cruzam. Deixemos de lado se eles se complementam efetivamente ou se apenas co-existem, mas tenhamos em mente que não são (e não poderiam ser) auto-excludentes, uma vez que a ausência de qualquer um deles nos leva ao limiar da auto-destruição.
E talvez – apenas talvez – este seja o ponto realmente relevante na discussão toda: a importância do contraste dentro de um quadro maior.
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Ângelo Amaral
Â
Referências:
MONDIN, Battista. O Humanismo filosófico de Tomás de Aquino. Tradução de Antônio Angonese. Bauru: EDUSC, 1998. 39 p. (Coleção Essência)
PAULO II, João. Fides et Ratio: Sobre as relações entre fé e razão. São Paulo: Paulus, 1998. 141 p.5.









Excelente artigo meu caro. E como não poderia deixar de dizer, excelente ilustração.
Fantástico Angelo…até li para meu marido o resumo:
A fé sem razão nada mais é do que ignorância.
A razão sem fé é egoÃsta.
a busca por uma existência sem motivação maior ou mesmo sem co-relação com pessoas que não estejam em sua vida social se torna vazia.
Como diz o ditado…para bom entendedor meia palavra basta.
Parabéns que Deus sempre o inspire a escrever com tanta propriedade.
Maisa,
Obrigado pelas palavras gentis. Continue por aqui, pois é a troca de idéias que nos leva ao amadurecimento tão necessário.
Abraços
Ângelo
Acredito que uma das frases de Agostinho poderia tambem pode ser levada em consideração:Creio para entender, existirá momentos em que a razão se sobordinará a fé, e a fé terá que ser expressa por meio da razão, é bom saber que podemos conservar coisas boas de tudo que ouvimos e lemos, na nossa natureza decaida de sua originalidade divina adiquirimos uma bestalidade terrena e imediatista e assim sempre pendemos de um extremo ao outro, Deus por meio de seu filho nos trouxe ao ponto de equilibrio ao qual expressa o autor divino da carta de 1 Pedro 3:15 antes, santificai a Cristo, como Senhor, em vosso coração, estando sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós, na vulgata latina estaria desta forma:15 (VULGATE) Dominum autem Christum sanctificate in cordibus vestris parati semper ad satisfactionem omni poscenti vos rationem de ea quae in vobis est spe, de uma forma erudita e bem colocada o autor o autor disserta sobre o logov(logon como está escrito no grego ) logos log’-os(razão )ao qual poderiamos até se possivel fazer um trocadilho por tanta beleza no texto:Fé e razão ,como queira, seria como explicar de maneira prudente como acreditamos e confiamos em Deus,como disse o filosofo Spinoza: tememos o que não conhecemos, que possamos conhecer a Cristo sem medo, parabéns o autor que nos da a margem para pensar que a maior razão de nossa vida é o LOGOS = Cristo.
Parabéns Angelo, vc sempre consegue sintetizar muito bem os momentos de reflexão que ocorrem no dia a dia, no entanto, creio que apesar de não excludentes, a razão sem fé não é egoÃsta, pois foi essa mesma razão que nos levou a criar o Estado democrático de direito, fundamentado na igualdade, fraternidade e solidariedade. Foi essa organização social que visando o bem comum, coordena os grupos sociais e seu interesses, muitas vezes conflitantes. Com isso não quero afirmar que a fé é descartavél, pelo contrário, ela é mais uma coluna mestra que ajuda o homem a viver com mais equilÃbrio e harmonia.
Quando o Estado se preocupa em cuidar dos desfavorecidos, ele o faz pois essa é a sua obrigação, e fomos todos nós que assim definimos.
A fé e razão não são auto-excludentes, pois para que uma exista a outra não precisa deixar de existir, porém, não pq se complementam ou uma sem a outra não encontra amparo; Basta retornarmos a Grécia antiga (mais precisamente ao tempo de Aristoteles) onde o valor do homem se dava pela sua virtude – Ética – onde o homem virtuoso e ético exercia sua razão plenamente, sem necessariamente ter a fé em um criador amparando-o.
Essa é apenas uma opinião, sabemos que o assunto é polêmico, e o constante debate trás a luz reflexões sempre muito importantes.
Djalma, obrigado pela fundamentação extra. Acredito que Tomás de Aquino seja efetivamente uma grande referência no campo dos estudos sobre fé e razão. Continue conosco e vamos levar adiante esta troca!
Luiz, entendo seu ponto e admito que embora polêmico ele é bem fudamentado. Como o próprio artigo se encerra dizendo “o importante é o papel do contraste dentro de um quadro maior”. E é este contraste que mantém sim, a fé e a razão como pilares mestres. Independente de abordagem ou ponto de vista, basta que possamos manter a mente aberta a ambas, buscando a elevação por meio destas Duas Asas.
E porque não lembrar que as duas asas de um pássaro são independentes, mas se cada uma bater por conta própria, o bendito não sai do chão? Embora a metáfora seja pobre, creio que fale por si.
Abraços
Ângelo
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