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Às voltas com a fé e a razão

Escrito por Ângelo Amaral 9 setembro 2009 6 pessoas comentaram

Fé e razão… assunto antigo e sempre atual. Título e tema deste portal.

Freqüentemente nos vemos às voltas com este tema, e faço questão de acentuar com “crase”, justamente para manter o estilo antigo de escrita. Nada contra a nova ortografia, mas o assunto em si não necessita de nova roupa, apenas da mesma atenção de sempre. Então o acordo ortográfico que me perdoe, mas vai ficar “craseado” mesmo.

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Semana passada fui surpreendido por dois colegas de trabalho que próximos ao fim do expediente argumentavam sobre alguma coisa. Fui convidado a participar da conversa e notei que discutiam sobre fé e razão, diante da questão “a existência de uma exige necessariamente a existência da outra?”

Creio que este seja o ponto que me chamou a atenção. Talvez porque não seja possível responder prontamente a esta questão. Não sem um estudo profundo. Não sem uma base teológica efetiva. Não faltando 15 minutos para o final do expediente.

Deste modo, preferi mudar o ponto de vista da pergunta. Como não tinha em mãos o Fidelis et Ratio (documento da Igreja Católica, de autoria do Papa João Paulo II, que tange esta questão com excelência) a saída era questionar se os pontos são efetivamente auto-excludentes, ou seja, se a existência de um implica necessariamente na inexistência do outro, ou não.

É comum pensar no maniqueísmo, a luta entre o bem e o mal, descrita em diversas culturas como o ponto de ruptura entre o humano e o divino. Eleva-se o humano ao status de bem e o divino ao status de mal, quando se pensa “à luz da ciência”, contra a igreja repressora desmascarada no iluminismo. Ou o contrário, quando consideramos o divino como sendo o bem e qualquer negativa dEle como sendo o mal encarnado em atos ou omissões.

De acordo com esta linha de pensamento, me vêm à mente a frase “Timeo hominem unius libri“,  (Temo o homem que só conhece um livro), de São Tomás de Aquino. 

A fé sem razão nada mais é do que ignorância.
Me perdoem os fundamentalistas, mas uma fé cega gera literalmente um comportamento de rebanho, sujeito aos desvairios de maus pastores com dinheiro na cueca. 
Escutar uma pregação e não processar o que foi dito, consiste em ignorar a profundidade real das palavras. Basta lembrar do artigo Escutatória, publicado aqui mesmo.

Em tempos de igrejas brigando com redes de televisão, de políticos e jogadores de futebol sendo associados a conglomerados supostamente religiosos com fins lucrativos, de uma internet onde qualquer um pode ser autor de conteúdo – o que torna questionável a confiabilidade do que lemos - beira o suicídio espiritual aceitar a fé sem uma pitada de razão.

Seria então a razão a chave para o sucesso? Mais uma vez, voltemos a Tomás de Aquino. Uma andorinha só não faz verão.

A razão sem fé é egoísta.
Sozinha, a razão descarta a necessidade qualquer ato que não tenha impacto imediato em sua vida. Descarta a necessidade de se preocupar com o próximo, quando as autoridades e programas sociais devem se encarregar disso. Descarta a necessidade de se voltar a um criador, uma vez que nós mesmos somos criadores de matéria, ainda que artificial.

Porém, nestes tempos de bens de consumo, do descaso com a vida alheia, de busca incessante por colocação em uma sociedade que estremece diante de uma crise financeira, a busca por uma existência sem motivação maior ou mesmo sem co-relação com pessoas que não estejam em sua vida social se torna vazia.

E aqui está o ponto ao qual procurei de chegar: Uma fé sem razão nos torna acéfalos, enquanto a razão sem fé impossibilita a realização de qualquer ato de caridade efetiva sem interesse futuro ou possibildiade de lucro (pessoal ou não).

Uma vez que qualquer destas duas posturas é nociva ao ser humano, deixemos aos teólogos e filósofos a discussão sobre o modo como estes pontos se cruzam. Deixemos de lado se eles se complementam efetivamente ou se apenas co-existem, mas tenhamos em mente que não são (e não poderiam ser) auto-excludentes, uma vez que a ausência de qualquer um deles nos leva ao limiar da auto-destruição.

E talvez – apenas talvez – este seja o ponto realmente relevante na discussão toda: a importância do contraste dentro de um quadro maior.

 

Ângelo Amaral

 

Referências:

MONDIN, Battista. O Humanismo filosófico de Tomás de Aquino. Tradução de Antônio Angonese. Bauru: EDUSC, 1998. 39 p. (Coleção Essência)
PAULO II, João. Fides et Ratio: Sobre as relações entre fé e razão. São Paulo: Paulus, 1998. 141 p.5.

Por Ângelo Amaral

6 pessoas comentaram »

  • Juliano Pozati disse:

    Excelente artigo meu caro. E como não poderia deixar de dizer, excelente ilustração.

  • Maisa disse:

    Fantástico Angelo…até li para meu marido o resumo:
    A fé sem razão nada mais é do que ignorância.
    A razão sem fé é egoísta.
    a busca por uma existência sem motivação maior ou mesmo sem co-relação com pessoas que não estejam em sua vida social se torna vazia.

    Como diz o ditado…para bom entendedor meia palavra basta.

    Parabéns que Deus sempre o inspire a escrever com tanta propriedade.

  • Ângelo Amaral (author) disse:

    Maisa,

    Obrigado pelas palavras gentis. Continue por aqui, pois é a troca de idéias que nos leva ao amadurecimento tão necessário.

    Abraços
    Ângelo

  • Djalma disse:

    Acredito que uma das frases de Agostinho poderia tambem pode ser levada em consideração:Creio para entender, existirá momentos em que a razão se sobordinará a fé, e a fé terá que ser expressa por meio da razão, é bom saber que podemos conservar coisas boas de tudo que ouvimos e lemos, na nossa natureza decaida de sua originalidade divina adiquirimos uma bestalidade terrena e imediatista e assim sempre pendemos de um extremo ao outro, Deus por meio de seu filho nos trouxe ao ponto de equilibrio ao qual expressa o autor divino da carta de 1 Pedro 3:15 antes, santificai a Cristo, como Senhor, em vosso coração, estando sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós, na vulgata latina estaria desta forma:15 (VULGATE) Dominum autem Christum sanctificate in cordibus vestris parati semper ad satisfactionem omni poscenti vos rationem de ea quae in vobis est spe, de uma forma erudita e bem colocada o autor o autor disserta sobre o logov(logon como está escrito no grego ) logos log’-os(razão )ao qual poderiamos até se possivel fazer um trocadilho por tanta beleza no texto:Fé e razão ,como queira, seria como explicar de maneira prudente como acreditamos e confiamos em Deus,como disse o filosofo Spinoza: tememos o que não conhecemos, que possamos conhecer a Cristo sem medo, parabéns o autor que nos da a margem para pensar que a maior razão de nossa vida é o LOGOS = Cristo.

  • Luiz disse:

    Parabéns Angelo, vc sempre consegue sintetizar muito bem os momentos de reflexão que ocorrem no dia a dia, no entanto, creio que apesar de não excludentes, a razão sem fé não é egoísta, pois foi essa mesma razão que nos levou a criar o Estado democrático de direito, fundamentado na igualdade, fraternidade e solidariedade. Foi essa organização social que visando o bem comum, coordena os grupos sociais e seu interesses, muitas vezes conflitantes. Com isso não quero afirmar que a fé é descartavél, pelo contrário, ela é mais uma coluna mestra que ajuda o homem a viver com mais equilíbrio e harmonia.
    Quando o Estado se preocupa em cuidar dos desfavorecidos, ele o faz pois essa é a sua obrigação, e fomos todos nós que assim definimos.
    A fé e razão não são auto-excludentes, pois para que uma exista a outra não precisa deixar de existir, porém, não pq se complementam ou uma sem a outra não encontra amparo; Basta retornarmos a Grécia antiga (mais precisamente ao tempo de Aristoteles) onde o valor do homem se dava pela sua virtude – Ética – onde o homem virtuoso e ético exercia sua razão plenamente, sem necessariamente ter a fé em um criador amparando-o.
    Essa é apenas uma opinião, sabemos que o assunto é polêmico, e o constante debate trás a luz reflexões sempre muito importantes.

  • Ângelo Amaral (author) disse:

    Djalma, obrigado pela fundamentação extra. Acredito que Tomás de Aquino seja efetivamente uma grande referência no campo dos estudos sobre fé e razão. Continue conosco e vamos levar adiante esta troca!

    Luiz, entendo seu ponto e admito que embora polêmico ele é bem fudamentado. Como o próprio artigo se encerra dizendo “o importante é o papel do contraste dentro de um quadro maior”. E é este contraste que mantém sim, a fé e a razão como pilares mestres. Independente de abordagem ou ponto de vista, basta que possamos manter a mente aberta a ambas, buscando a elevação por meio destas Duas Asas.

    E porque não lembrar que as duas asas de um pássaro são independentes, mas se cada uma bater por conta própria, o bendito não sai do chão? Embora a metáfora seja pobre, creio que fale por si. ;-)

    Abraços
    Ângelo

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