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Homeopatia da dor

Escrito por Felipe Savietto 8 agosto 2009 Seja o primeiro a comentar

Possivelmente  todos já passaram por aquela situação em que não é possível mais suportar os sintomas de gripe, não gripe suína, mas àquela clássica de todos os anos.  Então, depois de “N” tentativas com remédios diversos que obviamente não cumpriram as promessas do comercial, você acorda no meio da noite e resolve ir a um médico que, revestido do papel da supernanny e na eminência de te disciplinar por todos os teus pecados passados, prontamente te prescreve uma BEZETACIL. Você pensa: Meus Deus! Prefiro a morte, mas os bons modos de adulto controlam sua reação. Já sob os efeitos da disciplina da opressão, você diz – Obrigado doutor, agora acho que resolve – então, pega a prescrição e sai do consultório sem aparentar nenhuma alteração emocional. Entrando no carro, você agradece a Deus pelos comprimidos e passa na farmácia 24 horas para abastecer seu estoque e adquirir outras pílulas mágicas.

Essa situação corriqueira tem muito a nos ensinar. Por vezes nossa vida é acometida por grandes sofrimentos. Se inevitáveis, nos resta a sabedoria de saber vivê-los da melhor forma possível, extraindo o crescimento que conseguimos colher. Acontece que alguns sofrimentos chegam onde pensamos ser o limite, num lugar onde parece não haver mais possibilidades de enfrentá-lo. Engano! Sempre há possibilidades de enfrentamento. Lembremo-nos das palavras do apostolo Paulo: “Deus é fiel; Ele não permitirá que sejais tentados além de vossas forças …”(1Cor 10,13). Da mesma forma, não virá sofrimento acima do que podemos suportar. O dia que chegar algo que você não possa suportar, fatalmente você morrerá. Trágico, mas óbvio. Se você esta vivo, é porque tem condições de enfrentar o que esta passando. A questão é, como enfrentar?

É impossível comparar sofrimento, maior ou menor, o meu ou o seu. Na minha medíocre tentativa, imagino que um dos piores seja o sofrimento de uma mãe que vê seu filho morrer precocemente. E mesmo nestes casos, eu já vi diversos exemplos de mulheres fortes que re-significaram suas vidas e, mesmo com a dor, seguiram em frente encontrando felicidade pelo caminho. Jesus no ensina que é possível ser feliz, mesmo na dor.

Assim como existem sofrimentos cuja qualquer atitude para evitá-lo seja inútil, existem também aqueles que se mantém, ou se agregam a nossa vida, por conta de nossas próprias escolhas.  Vários deles se mantêm pelo medo de um outro possível sofrimento. Como no caso da injeção; tecnicamente a bezetacil oferece resultados para tirar as pessoas da doença, mas pode trazer uma terrível dor. O medo dela é tanto que há quem prefira a dor dos sintomas da gripe por dias a fio. É como se estivesse dizendo: tudo bem, eu agüento a gripe, mas não agüento a injeção.  É preciso enfrentar o medo de agulha para que essa alternativa evite o prolongamento da dor.

Certa vez, ouvi uma frase, não sei de quem é, mas diz assim: É melhor um fim trágico do que uma tragédia sem fim. E eu pergunto, quantas vezes escolhemos a tragédia sem fim? Quantas vezes estamos presos nos nossos círculos que se repetem várias e várias vezes e não nos permitem colocar nossas vidas numa direção saudável? Continuo perguntando, do que você se queixa na sua vida? Agora faça analise de perceber quais dessas queixas se mantém há um tempo que você considera longo demais? Quais queixas são reincidentes? Não existe azar, e tão pouco o cosmos está conspirando contra você. Aquelas frases feitas do tipo “isso só acontece comigo”, podem nos levar a refletir sobre quais escolhas nos colocam sempre em meio a situações que se repetem. Pode ser difícil analisar de imediato, mas algo de desagradável que se mantém na sua vida dificilmente será conseqüência de azar, mau olhado, inveja, macumba, vodoo, ou qualquer uma dessas coisas.

Há momentos que, se queremos mudanças positivas, precisamos encarar a benzetácil. Ou então podemos escolher pílulas de homeopatia e sofrer até ser tarde de mais. Talvez, a nossa primeira reação seja focarmos naquilo que não podemos mudar: na doença incurável, na pessoa que já morreu, no dinheiro que já se perdeu, na oportunidade que já passou, em alguém que nos abandonou. Mas e aí? Aconteceu! Esse é o ponto imutável. A partir desse ponto, qual sentença você quer dar a você? De vida ou de morte? Diante do imutável, quantos sofrimentos a mais agregamos? Por escolhas erradas imperceptíveis? Por medo? Curtimos a dor como um picles, as vezes até nso vitimizamos, se não para os outros, para nós mesmos ou para Deus. A benzetacil de uma mãe que perdeu o  filho talvez seja se desfazer do quarto que ela deixou do jeitinho que estava quando ele partiu pela última vez: gesto simbólico e significativo de despedida. Que triste a dor de perder! Mas, possivelmente, o quarto só traga mais dor e nada de positivo. Talvez ele seja a ilusão de que aquela pessoa ainda exista e pode voltar um dia. Que triste a espera de algo que nunca vai chegar. Desfazer o quarto é quebrar o círculo, é sair da mesmice, mesmo que pela via da dor, e ter contato com um novo horizonte e, portanto, novas possibilidades além daquelas vividas até então. Obviamente a escolha é individual, há quem prefira permanecer com o quarto arrumado do que sentir a dor de  desfaze-lo. Caímos novamente no poder das nossas escolhas. Se não tomamos atitudes de mudança, estamos, de certa forma, dizendo que ainda agüentamos aquela situação, ainda não chegou no limite, por mais que mentalmente insistimos em reverberar “Não agüento mais!”. Agüenta! Agüenta tanto, que a dor de mudar ainda é pior do que continuar na situação.

É comum nos apegarmos a esperança de que num belo dia algo mude. Mas Deus só age a partir da nossa decisão.   Infelizmente, existem certas formas de esperança que só nos levam a adoecer.  Ainda mais quando a dor da realidade é tão difícil quanto a bezetacil. Existem esperanças malditas, mas que justificamos com versículos biblicos sobre o tempo de Deus. Certas coisas aguardam o tempo dEle, mas outras permanecem por escolha. É preciso discernimento e coragem para decidir romper com o que é doentio. Quão saudável se faz nossa vida depois de vencermos nossos medos.  Quanta liberdade!

Entendam, que não quero aqui falar sobre a questão “perder um filho”, seria leviano falar sobre algo que nunca vivi, uso o exemplo numa tentativa de ser mais didático, portanto, espero que ele alcance nossas vidas na área em que fizer mais sentido. Qualquer um de nós pode ter um quarto para se desfazer, uma esperança doentia para matar. Penso ser melhor o incomodo súbito de uma injeção, do que uma dor prolongada na qual nós, infelizmente, acostumamos. Requer coragem. Chega de placebos!  Insisto na sabedoria do evangelho: Se alguém quer vir em meu seguimento, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e siga-me (Mc 8,34).

Felipe Savietto

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Pneumotórax

Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:
— Diga trinta e três.
— Trinta e três . . . trinta e três . . . trinta e três . . .
— Respire.

— O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
— Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
— Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

Manuel Bandeira

Por Felipe Savietto

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