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Confronto fé x razão

Escrito por Felipe Savietto 14 julho 2009 Uma pessoa Comentou

A graça de Deus é como uma chuva abundante que nunca cessa de cair. Está disponível incondicional e gratuitamente para todos àqueles que se abrem para recebê-la. Esta mesma graça chega até os filhos de Deus tanto por uma via humana, como por uma via espiritual.

No processo de viver o cristianismo passamos por altos e baixos da fé. Há momentos cuja atitude de crer em Deus parece, além de infantil, uma solução fácil e fantasiosa, mas com uma roupagem madura, inserida num contexto cultural, ainda mais em um país cristão como o Brasil. Por outro lado, há fases da vida em que a presença dEle nos parece tão certa quando o ar que respiramos. Não vemos, mas sentimos. Essa bipolaridade “crer x duvidar” vai acontecendo na medida em que crescemos como pessoa e como sociedade. Se outrora, pensar em fundamentos científicos para a explicação dos fenômenos naturais trouxe a dúvida da existência de Deus, hoje é possível perceber a presença de Deus por traz de uma criação muito mais complexa, com suas própria regras e própria liberdade de ser e evoluir. Não descarto aqui a hipótese da não existência de Deus, certamente alguns leitores podem ser partidários dessa opinião. Ambas exigem fé. Não há quem possa provar a existência de Deus, assim como também não há quem possa provar a não existência dEle. A responsabilidade é nossa por assumirmos nossas escolhas. Cada um escolhendo aquilo que faz mais sentido.
Escolher por crer em Deus, não nos isenta, em nenhum momento, de que nossa escolha seja colocada à prova. Quando posta a prova pelos outros, pode causar um certo incomodo, mas não acarreta em grandes transtornos. É possível usar um arsenal de razão para argumentar ou, simplesmente, ignorar as opiniões contrárias. Complicado é quando nós mesmos questionamos nossa própria fé. Complicado, porém essencialmente necessário. Se algo que acreditamos começa a incomodar a fé, pode ser um sinal de que mudamos nosso modo de pensar e nossa fé não acompanhou esse processo. Alguma coisa está incongruente. Um exemplo prático e simples é uma criança que acredita no papai Noel, mas, num dado momento, sua razão começa a amadurecer suficientemente para dizer a ela que: ela nunca viu o papai Noel, nem todas as crianças boas ganham presentes no natal, ela já viu algumas vezes seus pais colocarem o presente na árvore e o Playstation 3 pedido na cartinha foi tragicamente trocado por um conjuntinho de calça e camiseta. A realidade sempre fora àquela, mas, preferindo o conforto da fantasia, a criança não possuía uma maturidade apta para enfrentar essa realidade. A maturidade chegou! E com ela, a necessidade de questionar suas crenças infantis. Entendam que, até mesmo nesse exemplo, não importa a existência ou não do papai Noel. Importa que a criança “X” chegou num dado momento da sua vida que aquela crença natalina não fazia mais sentido e por isso ela teve que se adequar, extinguindo o que parecia absurdo para dar lugar ao que parece mais coerente.

O que importa é o quanto de verdade e congruência nós colocamos naquilo que professamos como fé. Será que verdadeiramente acreditamos naquilo que acreditamos? Parece redundância, mas muitos professam uma fé cristã por motivos inúmeros, mas que não possuem nada de verdade. Uns cresceram nesse meio e nunca se questionaram, outros acreditam na tentativa de garantir uma vida após a morte com todos os benefícios do céu, alguns crêem pelo alívio de consciência, etc. Se acreditamos como simples forma de ganhar o céu, nossa fé não passa de uma barganha. O mesmo acontece com aquela fé que exige favores de Deus. Já que não encontraram consistência na fé em algo como o gênio da lâmpada, passam a pedir para a divindade que parece mais plausível. Nada mais é que uma roupagem pseudo-madura para o papai Noel. Pense sobre o que você diria se, por acaso, chegasse no céu e o Deus que você creu a vida toda não fosse Deus que ali estivesse como Senhor? Você se arrependeria te ter crido nele? Se revoltaria? Se, o simples cogitar essa hipótese nos traz grande desconforto é porque não estamos seguros de nossa fé. Cogitar o diferente não deve ser ameaçador, deve promover reflexões que confirmem nossa fé. Se nossa fidelidade a Deus passou também pela nossa fidelidade a nós mesmos, esse fato cogitado não nos trará incomodo algum, porque fomos verdadeiros. A mentira leva ao desespero.

Pensando em cristianismo, que é o foco desse texto, a proposta de Jesus deve se tornar verdade para nós. Esse é um processo decisório que vem pela razão. A Razão nos traz a fé, e agora, pela fé, podemos crer na divindade de Jesus, e que Ele nos escolheu antes que nós O escolhêssemos; crer também em tudo o mais que está atrelado ao cristianismo. A fé nunca é imposta; é proposta que nos cabe escolher. Contudo, cada dia de nossas vidas será também um dia para reafirmarmos ou refutarmos nossas escolhas. Por isso, cada dia é preciso renovar nossa escolha pelo Cristo. Não porque outrora ela foi uma escolha imatura ou incompleta, mas porque diariamente estamos em transformação e essa escolha precisa ser constantemente congruente com esse processo de construção.
Conforme o tempo passa, essas escolhas se tornam mais consistentes, como uma casa edificada na rocha, diz o evangelho. Acumulam-se experiências que nos servem de bússola quando a situação atual confronta nossa fé. A fé é fortificada pela experiência. Nesses momentos de questionamento mais intenso, nos cabe uma olhar maduro pela nossa historia de vida e ver o papel do nosso Deus nessa historia. Se o que foi vivido foi verdadeiro, esse olhar será de grande conforto e produzira crescimento. Há momentos que somente a razão será sustento para crer em Deus, num processo de decisão simples e pura, sem o auxilio da emoção ou de sinais concretos.

Deus não precisa fazer chover maná no nosso quintal para que Ele seja nosso Senhor. Que fé é essa que precisa de provas? Deixou de ser fé. Nós nos submetemos ao senhorio de quem nós queremos, porque somos livres. Quem você quer servir? O Deus criado a nossa imagem e semelhança para ficarmos simplesmente apresentando necessidades no melhor estilo “padrinhos mágicos”? Ou o Deus que é verdade encontrada? Portanto, afirmo que é preciso conhecer a Deus, debruçar sobre a palavra dEle para saber quem Ele é, quem você está escolhendo servir. Vale lembrar que a verdade nunca é encontrada dentro de nós. É preciso sair de si. Se ficarmos somente presos em nós também não encontraremos nada mais que nós mesmos, e possivelmente um “eu” adoecido pelo individualismo. É saindo de nós que identificamos a verdade e encontramos um eco dela dentro nós.

Para àqueles que encontraram, a verdade do evangelho é algo tão forte que garante a ação divina de Jesus independente de um olhar sobrenatural para ela. A via humana pela qual a graça nos chega é através do conhecer a Ele. Pelo conhecimento, as palavras desse Deus tão amoroso, se integram na nossa forma de ser e agir. Não como um ladrão que rouba nossa personalidade, mas sim como um amigo que, de tanto ficarmos perto, acabamos assumindo algumas características. Quanto mais perto, mais parecidos. Portanto, vejo como desnecessária essa briga pela forma como Deus age. É irrelevante ter certeza da ação dEle, porque, a palavra de Jesus, estando traduzida em nossas vidas, automaticamente, promove um agir indireto, que independe da graça sobrenatural e acontece com naturalidade. A dúvida não deve afastar ninguém de Deus, mas aproximar. Embora, por vezes, também temos que aprender a convier com a falta de respostas, o esforço da busca nos coloca em direção da verdade. Se a fé e a razão não estão em congruência elas não funcionam como duas asas. Ambas estarão em guerra impedindo qualquer forma de crescimento. Conforme nossa razão se expande, nossa fé é obrigada a se adaptar e nenhuma deve ter medo do crescimento da outra, porque somente ambas atuando em conjunto nos levarão até Deus.

Felipe Savietto

Por Felipe Savietto

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