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A força para concretizar

Escrito por Felipe Savietto 30 maio 2009 3 pessoas comentaram

felicidade

Pensar em servir a Deus, para a maioria das pessoas, é consequentemente, pensar em dar o melhor de si. Não quer dizer que sempre se obtenha tal êxito, porém, essa intenção é constante nos pensamentos. Já dizia o ditado popular – “De boa intenção o inferno está cheio”. Qualidade no serviço não passa apenas pela intenção, mas pelo comprometimento e, por fim, pela concretização. A intenção é uma mera fantasia de bem que pode nunca vir a ser o que, de fato, pretendeu-se. Idealizar, a maioria é capaz. Concretizar, é para raros.

Imaginem quantos planos, projetos e idéias de bem se perderam no tempo, caindo no esquecimento, ou simplesmente ficando presas em cadernos e no porão de nossas lembranças. Que triste isso! Mas uma verdade. Quantas pessoas que poderiam canalizar suas forças para atitudes positivamente construtivas, mas deram outros destinos para sua intenção?

Ocorre então, o contrário. E o contrário não necessariamente é o inverso. Afinal, nem sempre as pessoas fazem o mal. Por vezes, ou na maioria das vezes, elas simplesmente não fazem. Vivem uma mediocridade arrastada e sem sentido. Não fazer nada, se pode entender como também ir na direção contrária de fazer o bem, porque a mesmice é um mal silencioso, que prejudica lentamente a si mesmo e quem está perto.

Podemos olhar as notícias no jornal e ficarmos indignados com tanto mal no mundo. Certas atitudes parecem-nos incabíveis para um ser humano. Porém, limitar-se a solucionar o mundo com propostas idealizadas que apenas se “reverberam” e nunca se concretizam, não passa de mediocridade. Todo mundo faz! Talvez, não sejamos capazes de ter atos heróicos possíveis de salvar a humanidade. Mas, tão heróico quanto, é o gesto de fazer o bem no mínimo e em tudo que se pode. Ouvi esses dias que na Torá judaica está escrito assim –“Quem salva uma vida, salva a humanidade inteira”.

Por que será que nessa balança sonhar/concretizar não encontramos equilíbrio? Obviamente, poder-se-ia levantar inúmeras respostas coerentes sobre viabilidade e limitações diversas. Porém, uma das grandes correntes que amarram o ser humano, seja na maldade, seja na mesmice, é a falta de comprometimento com a felicidade. A infelicidade vai travando pouco a pouco quem quer que seja; e vai assim, extinguindo o combustível que desencadeia boas obras e viabiliza a concretização de ideais.

A proposta evangélica do Cristo é, acima de tudo, uma proposta de felicidade. E o cumprimento de suas palavras é garantia dela. Todas as vezes que eu me coloco a serviço do reino de Deus e não estou plenamente feliz, certamente o meu serviço a Ele não acontece por inteiro. Apenas sou inteiro em Cristo e para o próximo, se sou feliz. A falta deste sentimento transforma nosso modo de pensar e, por conseqüência, tudo o que em nós se comunica com a humanidade: nossa forma de falar, de se relacionar, nosso agir, nossa criatividade e o que cada um sabe a respeito de si, que se apresenta de forma incompleta.

Encontrar a felicidade implica em encontrar a verdade. As vezes em que nos aproximamos verdadeiramente de nós mesmos e somos coerentes conosco, encontramos liberdade e felicidade. É essa aproximação que Jesus quer realizar. E, é nesse processo que nos aproximamos de Deus, porque, se não estamos na verdade, não estamos em Deus.

Antigamente eu pensava que fazer a vontade de Deus era renunciar a minha e que isso era muito doído. Hoje penso que fazer a vontade de Deus é encontrar a felicidade verdadeira e que não há nada de infeliz nisso. Quando Jesus ordena aos discípulos sobre renunciar a si mesmo, refere-se a renúncia desse eu falso que a maioria das pessoas vive. Conforme renunciamos esse eu, nos vamos aproximando da vontade dEle e por conseqüência encontrando o “eu” verdadeiro gerado em Seu coração. “Necessário vos é nascer do alto” – não é essa uma das ordens de Jesus? A renúncia do “eu” velho é a gestação do homem novo, nascido do alto. Processo para vida inteira, concretizado apenas no encontro final com Deus. Processo esse que garante a felicidade.

Obviamente não exclui o sofrimento. Ser feliz não tem nada a ver com não sofrer. Jesus sabiamente nos ensina a ser feliz mesmo no sofrimento. Não o sofrimento buscado por intenção, esse é masoquismo. O sofrimento inevitável pode sim conviver com a felicidade, pois esta não precisa, necessariamente, se apresentar como alegria, ela se mantém firme mesmo na quietude, na serenidade, em momentos de maior introversão e em episódios de tristeza. Há quem pense que ser feliz implica em todos os momentos transbordar alegria, rir demasiadamente como se a vida fosse uma eterna viagem a Disney. Não! A felicidade tem diversas formas de manifestação e elas são coerentes.

A conquista dessa felicidade é a garantia de um serviço a Deus de qualidade. É a via para se sair da mediocridade, de fazer diferença positiva no mundo. Por isso a mudança da humanidade começa no individuo, porque dessa forma, se ascende o combustível que possibilita colocar em gestos o que antes se limitava a intenção. Outrora, na infelicidade, faltava força, portanto faltava Deus. Tudo nEle transpira felicidade e o que for vivido para Ele deve refletir esse sentimento: vocação, serviço, expressão dos nossos dons, etc.

Tenho aprendido que tenho a obrigação de ser feliz e dessa forma fazer a vontade de Deus, porque só assim serei inteiro para Ele. Se não, oferecerei a Ele e ao mundo, apenas os meus restos. De que adianta uma vida inteira de boas intenções, mas pela metade? É melhor que seja pouco, mas por inteiro. Deus nos quer felizes, eis uma verdade! Que a alegria, o gaudium de Deus, nos visite, iluminando o que em nós está distante dEle, fazendo assim, com que toda a possibilidade de bem tenha força para se concretizar.

Felipe Savietto

Por Felipe Savietto

3 pessoas comentaram »

  • Juliano Pozati disse:

    As vezes vivo um verdadeiro pesadelo com a balança do sonhar/concretizar. Cobro de mim as concretizações. Contudo vejo alguns amigos mais velhos cujo amargura trasborda-lhes os lábios quando falam do que “não se pode realizar” do que é “difícil de mais” “dos impossívels” que a história da própria vida com fracassos lhes imprimiu.

    Essa cobrança pode se tornar um labirinto! Mas a felicidade como você bem disse, se concretiza em nós, em nossa vida. Nós somos o palco, a peça e o ator onde a Graça pode se concretizar. Palco, peça e ator precisam se conhecer profundamente, senão o teatro do grande autor não acontece.

    “Conhecer a si” para fazer de si mesmo o concretizar da Graça, me parece a grande chave apontada neste artigo, e para mim foi de grande proveito…

  • Iago disse:

    Concordo em muito com você.
    Viver para Deus não quer dizer esquecer de si, mas abrir-se para o outro, abrir-se para Deus. Negar que temos todas as resposta e perguntar!
    Temos que negar o ego, o egoísmo, mas viver um Eu que busque a Deus, que se abra.
    quanto a questão da felicidade, não sei se sou obrigado a ser feliz, mas quero ser!
    Bom texto!

  • Francisco Drezza disse:

    Texto fabuloso!
    A única observação que tenho e talvez caiba somente a mim é:
    Deus tem uma ação muito mais poderosa na minha vida, de fora para dentro do que de dentro para fora.
    Ele trama situações, de forma que eu somente encontro a felicidade debaixo de seus ensinamentos e tradições.
    Quando deixo a minha humanidade falar mais alto, somente encontro destruição e terra arrasada.

    Abraço

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